Chapter 3 - Meetings [Part 1]


A rapariga juntou-se aos restantes. Tinha aprendido a viajar como as guerreiras do Firmamento viajavam. Tinha aprendido como os guerreiros do sul viajavam. Tinha aprendido como, através de espelhos ou reflexos, os Vetustos do Firmamento viajavam. Mas não sabia como é que as Guardiãs queriam viajar.
Vira-as apenas aparecer no meio da multidão; e sabia não ser capaz do mesmo.
Para seu consolo, as Guardiãs fizeram um chamamento e um Afhúri apareceu do Abismo. Os afhúris eram caninos grandes, normalmente ou lobos ou cães que acompanhavam as feiticeiras, dependendo do seu nível e da sua colocação.
Pelo tamanho do cão, Faryn nem queria adivinhar o poder de cada uma das Guardiãs.
Um a um os Vetustos do Firmamento subiram para as costas do animal, seguidos das Guardiãs das Torres e de um elemento novo: um filho da Aurora.
Faryn sentiu igualmente um grande poder a vir do rapaz, mas este escondeu-o imediatamente, sentindo a sua aproximação. Os reprodutores para as Guardiãs deviam ser escolhidos a dedo de entre os Deuses do Portão, para que a sua prol fosse das mais fortes.
Sentiu um puxão nas suas defesas, e reforçou-as imediatamente. Olhou de relance para o filho da Aurora e cerrou os dentes. Para alguém que era um ser respeitoso e dos mais poderosos, este estava a ser extremamente irritante.
Sentiu novamente um outro puxão, mais forte desta vez. Da primeira vez tinha apenas reforçado a sua defesa, mas se ele atacasse novamente Faryn não iria recuar.
O filho da Aurora desequilibrou-se e por pouco não caiu ao chão. Faryn escondeu um sorriso de satisfação. Lá se vai o ego do pobre rapaz. Ele que não fosse tão estupidamente confiante e não tivesse atacado.
Idiota... pensou Faryn, dando-se conta que o rapaz endireitava-se e sorria-lhe.
Nada a podia ter preparado para o ataque psíquico que sofreu de seguida. Foi como um tsunami de poder imenso e puro a romper-lhe pelo cérebro dentro. Faryn arquejou e agarrou-se á cabeça. Tentou fechar novamente as suas defesas, mas a força era de tal forma poderosa que assim que o tentava, dava-lhe um dor excruciante na cabeça.
Acabou muito de repente, deixando a sua cabeça com um vazio calmo e bem-vindo.
Faryn respirou fundo, mas não se atreveu a olhar para trás. Além de ter o orgulho ferido, sentia um ligeiro receio ao dar-se com estas figuras graciosas e poderosas que lhe poderiam destruir a mente com um simples pensamento.
A maior parte da viagem foi passada em paz. O afhúri que os transportava parecia não se cansar, pelo que já tinham passados cinco horas desde que a viagem se havia iniciado e em pouco tempo deviam estar a chegar ao local onde eram esperados. Ouviu alguns dos seus companheiros Vetustos do Firmamento a dizer que o grupo ia-se dividir em dois, pois a sua presença era esperada em dois Templos diferentes.
Já tinham passado pela capital da região de Harda, Dhumlar. O primeiro Templo, segundo lhe disseram, era o Templo de Numnei. O segundo era o Templo de Isbjarn.
A Suprema Senhora do Templo de Numnei era uma feiticeira chamada Ophelia. Diziam que ela era das mais simpáticas e que pouco punia as jovens feiticeiras/os que faziam asneiras. Porém, a Suprema Senhora de Templo de Isbjarn já não era tão benevolente. Diziam que não era muito má, mas que era muito exigente com quem entrava para o seu Templo. E que muito provavelmente mandaria embora qualquer pessoa que a desapontasse.
Para além disso situavam-se em territórios diferentes. Numnei era uma terra de prados luxuriantes, e que normalmente ficava cheia de neve no Inverno. Já Isbjarn situava-se num local de dificil localização, devido à vegetação densa. Era rodeado de florestas e de rios e cataratas.
Faryn não se decidia sobre qual é que seria melhor para si, mas também não se importava muito. Não seria ela a decidir quem é que ia para qual. Seriam as Guardiãs.
Foi com surpresa que sentiu novamente um puxão nas suas defesas. Muito timidamente mandou um fio psiquico para fora das suas defesas, mas assim que reconheceu quem era, retirou-se novamente para as suas defesas e reforçou-as.
Maldito filho da Aurora... pensou, irritada. Parece que adora irritar-me e humilhar-me.
Não se deu ao trabalho de olhar para trás, e ignorou os vários puxões das suas defesas.
Também ignorou quando um fio psiquico começou a inspeccionar as suas defesas minuciosamente.
Mas não conseguiu ignorar quando um desses fios realmente encontrou uma brecha. Num instante o rapaz começou a vasculhar nas suas memórias e foi aí que Faryn se irritou.
*Pára com isso! Já!*
O rapaz surpreendeu-se ao ouvir a voz dela na sua cabeça, mas recompôs-se rapidamente.
*E porque é que haveria de o fazer?* respondeu ele, calmamente.
*Porque essas memórias são privadas; e não deves vê-las.*
*Isso não me interessa. Tal como eu, outras pessoas tentarão fazer o mesmo. Habitua-te.*
A rapariga conseguia quase sentir o pequeno sorriso que se expandia no rosto do rapaz. Sentia-se frustrada consigo própria por não conseguir arranjar barreiras suficientemente fortes para conseguir parar o rapaz de entrar na sua mente.
*Como é que te chamas?* perguntou, vendo que ela não lhe estava a responder.
E de facto, Faryn não respondeu. Sentiu um dos fios psíquicos a contorcer-se dentro da sua mente e a aprofundar-se mais na sua memória quando decidiu responder.
*Faryn.* Disse, quase num rosnar.
O filho da Aurora parecia estar a achar toda esta situação extremamente divertida. Faryn desejou chegar já ao Templo para se ver livre deste idiota.
*Olá Faryn. Sou o Auron. Prazer em conhecer-te.*
A rapariga respondeu algo meio mastigado, mas que o rapaz compreendeu milagrosamente.
O fio psíquico foi lentamente retirado da sua mente, e sem esperar por mais Faryn reforçou a suas defesas uma vez mais. Tanto quanto pôde.
Ainda sentiu um leve riso ao fundo, e abraçou-se. Nunca lhe haviam entrado na mente tão de repente e nunca tinham invadido tanto a sua privacidade.
Então isto é que é o poder... pensou Faryn, enquanto se virou para o lado para vislumbrar o rapaz que lhe devolveu o olhar descontraídamente e sorriu.
A rapariga ignorou-o e no momento seguinte sentiu uma perturbação no afhúri que as carregava. Pelos vistos as Guardiãs também, pelo que desceram do meio de transporte e mandaram-no parar. A levitar, falaram com o afhúri. Não estiveram muito tempo a conversar. Passado uns quantos minutos já estavam novamente a andar em direcção ao Templo.
E não demorou muito até conseguirem ver as paredes brancas e cinzentas do grande Templo de Numnei.
Encontrava-se num prado verdejante em que o sol brilhava, jubilante. O afhúri parou na entrada do Templo, onde estava um jardim iluminado pelo sol.
Pouco tempo depois as portas do Templo abriram-se e uma figura altamente decorada com símbolos veio até elas.
A Grande Sacerdotisa... pensou Faryn, e vendo que os outros começavam a fazer uma vénia, também o fez.
- Allina, Ellina. – disse, olhando para as Guardiãs. – Vejo que trouxeram mais feiticeiros do que aqueles que estipulámos.
- Os restantes são para o Templo de Isbjarn. – responderam em uníssono.
- Ah, pois bem. Despachemo-nos então. Um dos Sacerdotes Supremos dos Templos do Norte está à espera que eu regresse para continuarmos a nossa conversa.
As Guardiãs nada disseram, mas pegaram em três dos seis Vetustos do Firmamento e deixaram-nos ao cuidado de Grande Sacerdotisa, que os encaminhou logo para dentro. Então Faryn ficaria no Templo de Isbjarn...
A caminhada continuou, e para grande aborrecimento de Faryn, Auron continuou a tentar entrar dentro da sua mente. Felizmente para ela, o rapaz não mais conseguiu encontrar uma brecha nas suas defesas.
Passado algum tempo os campos abertos e verdes deram lugar a um espaço mais fechado e denso. Os prados transformaram-se em floresta e o tempo solarengo começou a ficar enevoado e com nevoreiro. As brumas começaram a tocar a terra quando finalmente chegaram ao Templo de Isbjarn.
Desta vez nenhuma Sacerdotisa os veio cumprimentar. Estava uma rapariga de cabelos castanhos claros e olhos cinzentos à espera deles. Era uma Cantora das Estrelas experiente e guia-mor, brincou ela, do Templo de Isbjarn.
Faryn e a outra rapariga foram guiadas até à parte sul do templo, onde estavam os dormitórios das raparigas da mais baixa classe. Os quartos eram divididos por dois, e a feiticeira ficou com essa tal rapariga no quarto. Aprendeu mais tarde que o seu nome era Ceula.
As suas coisas já estavam lá postas. O quarto não era nada demais. Apenas duas camas cómodas, um armário para as roupas e uma secretária vazia. O próprio quarto parecia tão invernoso como o tempo lá fora, mas Faryn não se importou. Esperava conseguir aprender mais coisas aqui, e com elas evoluir para o próximo nível de conhecimento. Fosse ele qual fosse.
Deitou-se na cama depois de arrumar as coisas. Acariciou a sua pedra de um cinza escuro, com veios roxos. Se bem se lembrava, o roxo denunciava a presença de uma Observadora da Madrugada, que poderia ascender a Senhora da Meia-Noite; e mais tarde talvez a uma Sussurrante da Escuridão. A feiticeira que tinha maior poder sobre a noite e as horas de escuridão, bem como de todo o tipo de sombras e invocações.
Mas o cinzento... o cinzento não era uma cor. Faryn não sabia o que significava o cinzento. Contemplou perguntar à sua companheira de quarto, pelo que esta lhe respondeu de modo vago:
- Pelo que eu li enquanto estava na vila, acho que as pedras com sombras são pedras que não têm um poder definido. Podem ter qualquer coisa, como podem não ter nada. O tom da sombra, conforme seja mais escuro ou mais claro, informa do nível máximo a que as feiticeiras que possuam esse tipo de pedra fazem as magias. Suponho que quanto mais clara, maior será o poder.
- Oh... obrigada. – disse Faryn, ligeiramente desapontada com a sua pedra. Pelo menos ainda tinha os veios roxos; e sempre gostara de Sussurrantes da Escuridão.
Olhou para a janela. Do quarto onde estava podia ver uma extensão enorme de árvores e nébula; e o que parecia ser um lago. A escuridão já estava a ganhar à luz e a companheira de Quarto de Faryn acendeu as várias velas que existiam à volta do quarto, para o preparar para a noite. Faryn sabia que em breve iriam jantar, e apressou-se a acabar de arrumar os seus pertences.
Tal como previra um pouco mais tarde bateram-lhes à porta, anunciando o jantar. Quando Faryn abriu a porta, deu de caras com a rapariga bem humorada que as tinha ajudado pelo resto do Templo.
- Venham Irmãs. Eu levo-vos ao refeitório.
- Obrigada irmã. – respondeu Faryn, com um sorriso. – Não cheguei a saber o teu nome.
- Sou a Galea, e tu deves ser a Faryn. Falaram-me de ti.
A feiticeira ficou confusa. Ninguém naquele sítio conhecia quem ela era, quanto mais o seu nome.
Apercebendo-se da sua confusão, Galea disse:
- Foi o Auron que me disse. Pelos vistos vocês travaram conhecimentos na vossa viagem.
O humor de Faryn baixou subitamente.
- Conhece-lo?!

Chapter 2 - Rituals


- FAAARRRYYYNNN!!!
- Oh merda...
A rapariga estava deitada, olhando sonolentamente para o sol já alto no horizonte. A sua mente processou o grito que ouvira do outro lado do seu quarto, quando as peças do puzzle se encaixaram.
- Oh.... OH MERDA!!! – repetiu a rapariga, saltando da cama e atirando-se para o chuveiro.
- Vou chegar atrasada, vou chegar atrasada, vou chegar atrasada... – repetiu enquanto enfiou uma fatia de pão com geleia dentro da boca.
Já tinha vestido o fato de Iniciante de Vetusta do Firmamento. Não podia atrasar-se de qualquer das maneiras. A Mestra assá-la-ia viva! E os pais. E as amigas... Faryn remoeu toda esta informação e correu para fora da casa, dando-se conta de uma rapariga que repousava na relva, à sua espera.
- Faryn! Finalmente! Mexe esse rabo preguiçoso! Temos uns minutos antes da cerimónia começar.
- Então não estou atrasada? – perguntou Faryn, olhando para a rapariga de cabelo louro.
- Claro que não, sua tonta. Vá, despacha-te!
Faryn entendeu isto como uma ordem para começar a andar e assim o fez.
- Hey, Vimy... Achas que vamos ficar na mesma ordem?
- Não sei Fanny. Acho que isso depende de como a cerimónia correr, e o grau a que pertencermos. Mas não te preocupes, ficaremos sempre em contacto.
Vimy sorriu para Fanny; e esta sentiu-se muito melhor. Sempre admirara a honestidade directa e crua de Vimy. E também de sua força de vontade. Vimy sempre fora uma rapariga com... paixão. Sabia o que defendia e não desistia, nem que lhe dessem com um pau na cabeça.
- Ouvi dizer que as Guardiãs vão estar cá. – disse Faryn, com um ar descontraído. - Vão ser elas a presidir a esta cerimónia, sabe-se lá porque razão...
Vimy olhou para Faryn com os olhos abertos de espanto.
- A sério?! Mas elas nunca saíram da Torre da Alvorada!!! – disse, olhando para a rapariga de cabelos arruivados.
- Oh, de alguma maneira elas conceberam os filhos da Alvorada...
- Fanny!!! – exclamou Vimy.
Faryn riu-se e começou a correr para escapar aos golpes da sua amiga, que estava a tentar acertar-lhe com o seu bastão de iniciante.
Em pouco tempo tinham chegado à praça onde todos os rituais eram celebrados. Estava lá uma multidão enorme. Faryn não acreditava que estava lá toda aquela gente para vê-las a serem iniciadas a Vetustas do Firmamento. E de facto, tinha razão. Aquelas pessoas estavam lá todas para verem as Guardiãs ao vivo.
Ambas as raparigas debateram-se para chegarem à zona central onde a iniciação iria começar. Tiveram que dar algumas cotoveladas e mesmo alguns pontapés quando alguns dos homens mais corpulentos fizeram uma parede de corpos mesmo na linha de frente. Felizmente chegaram mesmo a tempo do início do ritual.
Juntaram-se à pequena multidão de jovens da mesma idade delas que estavam a ouvir atentamente o discurso da mestra.
- Iniciantes! Eis o dia pelo qual todos vocês esperaram! Têm lutado durante seis anos para conseguirem chegar onde estão agora. Os meus parabéns. Este ano não me cabe a mim presidir a esta cerimónia, mas sim às Guardiãs das Torres da Alvorada. Peço a todos os que estiverem a assistir silêncio absoluto. – e com isto retirou-se.
Houve um arquejo colectivo quando dois mantos de igual cor e tamanho apareceram misteriosamente no meio do palco.
Faryn, que estava apenas a escassos metros de onde as Guardiãs apareceram, arquejou alto e deixou de respirar por uns quantos segundos. O poder... o poder era imenso! Conseguia sentir os tentáculos do poder das feiticeiras a roçar o seu escudo mental, mesmo a esta distância! E soube por instinto que estas estavam a esconder muito do seu poder original.
Dos iniciantes que se encontravam ali, só ela reagira de forma tão explosiva.
Conseguiu sentir alguns olhos em si, mas desinteressaram-se depois de algum tempo.
As Guardiãs fizeram um gestou com a mão e automaticamente todos os iniciantes ali juntaram-se numa fila. Foram treinados para reconhecer esse gesto.
Foi então que uma das Guardiãs se aproximou do primeiro iniciado e lhe deu uma infusão para este beber. E ele assim o fez.
Faryn já vira algumas vezes este tipo de ritual; e não achou nada de especial. A maior parte das pessoas tinha apenas de beber um infusão e passado algum tempo era-lhes colocado um colar com uma pedra incolor ao peito que aos poucos se ia enchendo de cores. As cores definiam o nível e o tipo de feiticeiro/a. Por vezes era apenas uma cor, outras vezes eram várias. E ás vezes a pedra não se enchia de qualquer tipo de cor, pelo que essas pessoas não passavam no ritual. Normalmente treinavam mais para no próximo ano tentarem outra vez, mas também acontecia pessoas desistirem da arte e ficarem-se pela mais básica.
Ficou especada enquanto via que a pedra não se enchia de qualquer tipo de cor.
E foi assim que a Guardiã dispensou o primeiro iniciante.
Depois dele seguiu-se outro. E outro.
Faryn começou a ficar com medo, assim que viu que o número de iniciantes que passavam a Vetustos do Firmamento era apenas uma facção reduzida em relação àqueles que saiam. Isto nunca acontecera, desde que Faryn se lembrava.
Já tinha presenciado quatro vezes este ritual; com os seus tenros 12 anos, podia assistir a poucos mais; mas nunca tinha visto algo do género. Normalmente quase todos passavam.
O seu medo começou a aumentar enquanto via a Guardiã a aproximar-se de si. O rapaz ao seu lado parecia estar tão nervoso quanto ela, e quando foi convidado a beber o tónico Faryn reparou que as suas mãos tremiam.
Foi novamente atacada pelo poder da feiticeira quando a viu mesmo à sua frente. A Guardiã era alta, mas o capuz que usava tapava a sua cara. Como se fosse num sonho distante, Faryn viu o tónico à frente da sua cara.
Faryn, tu consegues... Lembra-te do que a mestre te disse. “Têm que ser vocês próprios e nada mais. O treino que os Iniciantes de Vetustos do Firmamento recebem é para que consigam encarar a realidade de Vetustos do Firmamento. Aí sim, saberão o que é trabalhar a sério.”
Muito devagar, Faryn acalmou-se e sentiu o seu ritmo cardíaco a abrandar e a pulsar num ritmo muito mais lento que o normal. Sentiu-se a cair – para o interior; mas deixou o muro da sua mente completamente fechado. Pegou no tónico e bebeu um gole. Foi instantâneamente acomedida pela sensação de que estava a cair, cada vez com mais força, pelo que ela era. O Eu. O Eu sobre o qual ela lera quando se escapulira para a parte proíbida da biblioteca do colégio.
Estava tão escuro, pensou Faryn quando parou de cair, sabendo mesmo assim que a queda não tinha totalmente acabado. À sua volta, escuridão. Abaixo dela um abismo solitário. E silêncio. A rapariga parecia estar a pairar numa escuridão desconhecida. E ao mesmo tempo tão familiar.
Reparou pouco depois que afinal não pairava. Os seus olhos curiosos observaram os finos fios prateados que ligavam o abismo de uma ponta à outra, sendo impossível cair. Ou, pensou sombriamente, sair.
Um rosnado selvagem chegou aos ouvidos de Faryn, e esta começou a tremer. Este rosnado não era familiar. Não pertencia aqui. Não era Ela.
Então, sentiu-se novamente a subir e abriu os olhos. Sem saber porquê, arquejava. O ritmo lento do seu coração fora substituído por um ribombar alucinante, e Faryn sentiu-se cansada.
Lembrou-se da Guardiã à sua frente e de imediato baixou os olhos para observar a pedra que lhe pendia do pescoço.
Para seu grande alívio não tinha aquela cor transparente que muitas outras pedras possuiam. Esta sim, tinha uma cor. Faryn acariciou levemente a pedra da cor da cinza escura e reparou possuir uns quantos veios roxos. A sua felicidade foi rapidamente interrompida quando a outra Guardiã se aproximou dela e silenciosamente levou-a pela mão até a um grupo diminuto de rapazes e raparigas. Não se apercebendo do tempo a passar, surpreendeu-se quando as pessoas começaram a dispersar.
Olhou em volta à procura de Vimy, mas não a viu.
Estava prestes a gritar por ela quando a viu a chorar junto à mãe. E deduziu tudo a partir daí. A sua amiga de infância não tinha passado no teste.
Doces Trevas... por favor, não deixem que esta seja a última vez que a vejo.
Uma mão agarrou o seu braço e viu a maior parte dos recentemente formados Vetustos do Firmamento a despedirem-se da família.
- Faryn!! – a voz tão familiar chegou-lhe aos ouvidos enquanto se virava para a fonte da voz; e recebeu um abraço apertado que lhe expulsou o ar dos pulmões.
- Mãe... – sussurrou. Sabia que muito raramente iria ver a sua mãe a partir de agora. O seu treino como Vetusta do Firmamento não lhe permitia sair do Templo que iria agora habitar. E teria que se saber comportar na sociedade altamente hierarquizada em que estava prestes a entrar.
Talvez daqui a alguns anos pudesse novamente reunir-se com os seus entes mais queridos –e com Vimy – e depois voltasse tudo a ser como dantes. Não. Nada seria como dantes. Pois se voltasse viria no minimo como Cantora de Estrelas, um dos ramos mais baixos da hierarquia, acima das Vetustas do Firmamento. Sabia que as Cantoras de Estrelas normalmente tinham pedras de tom mais claro. Rosa ou lilás, amarelo ou creme. E algumas era aguadas. A sua era cinzenta escura com um pouco de roxo...
- Vou ter tantas saudades tuas, minha filha...
Faryn abraçou a mãe. Nunca fora muito chegada à família. Era filha de uma antiga Tecedeira do Sol e de um Guerreiro das Cortes do Sul.
A sua mãe abdicara do posto para vir morar para Bonfar com o seu pai. E as feiticeiras nunca aprovaram o seu casamento com um dos descendentes da tribo dos sairenos. Descendentes de demónios animais.
Já era uma sorte a terem deixado entrar como Iniciante de Vetusta do Firmamento, mas como o seu pai tinha muitas influências por estas bandas, não foi grande problema.
Mesmo assim o seu pai era olhado de lado pelas suas orelhas de raposa e temperamento explosivo. Temperamento este que ela tinha herdado, bem como os seus olhos verdes e o seu cabelo arruivado, e uma certa tendência para atrair problemas.
Isso já não acontecera à sua irmã, Nathalie. Ela era a fotocópia da mãe. Cabelo castanho, olhos azuis, pele pálida.
Depois de largar a sua mãe, abraçou a sua irmã e trocou algumas frases comodidas. Sabia que iriam sentir a sua falta. Ela também sentiria a sua falta, mas isso passaria.
- Faryn, minha pequena raposa.
Faryn virou-se e abraçou o seu pai. De todas as pessoas da sua pequena família, era aquela de quem estava mais próxima.
- Amo-te muito pai.
- Oh, minha pequenina raposa... Eu também te amo muito. – abraçou-a mais – nunca te esqueças disso.
E foi assim, num repente, que a sua familia desaparecera da sua vida enquanto a via caminhar para longe de si. E virou-lhes as costas. A sua nova vida chamava por si. Ao olhar para o grupo de Vetustos do Firmamento, reparou que com ela, eram apenas seis. O resto tinha sido dispensado.
Estavam à sua espera.
- Vem criança raposa. – disse-lhe umas das Guardiãs. E Faryn encolheu-se como se tivesse levado uma bofetada. Todos na vila sabiam da sua descendência, mas mesmo assim, a naturalidade com que a Guardiã o afirmara soava estranho; e ligeiramente acusador.

Chapter 1 - Shadows



"Um déspota malvado, escondido nos recantos da sua própria podridão. Como ela, sujo e rafeiro, foi apenas ele a condição da sua própria fraqueza. Não há nada que possamos fazer para ajudá-lo. Está perdido e arruinado. Partido."
Aquelas palavras ecoaram na sua cabeça durante muito tempo, enquanto que as gotas de água pequenas e claras caíam na superficie gelada. Partido... repetiu ele na sua mente. Ele não passava disso. Cacos perdidos de uma mente estilhaçada. Crack.
Quem está aí?
Pensou, enquanto ouvia um baque de mais qualquer coisa estranha que parecia vir de todos os lados.
Quem está aí?! Repetiu, desta vez mais forçasamente. Mais ordem que pedido.
Mas nada lhe respondeu.
Agarrou os cabelos com força e prendeu o grito que lhe aflorava aos lábios na sua garganta. Não podia... Não podia gritar e deixar que as Trevas reclamassem dele tudo o que fora. E o que viria a ser...
Como os grandes caem... São sempre os primeiros a cair.
Ele escutou, mudo, as palavras atiradas para o vazio. Não, para o vazio não. Para ele.
Mas também, raciocinou, ele não deveria estar muito diferente do vazio que o rodeava. Quase inexistente. Negro. Tumultuoso e apático. Um doce prelúdio do fim.
Deixou que a sua cabeça ( se é que ainda lhe restava uma) descaísse sobre os cacos avermelhados que jaziam por baixo dele. Se o que restara dele estava lá, então seria com esses cacos que partiria. O que restava dele queria descanso. Paz. O que quer que a Escuridão infindável lhe trouxesse.
Filho de Rhodos, nunca pensei que desistisses com tanta facilidade.
Quem está aí?!
Gritou ele, atemorizado pelo reconhecimento daquele... ser.
Sou eu. – respondeu-lhe. – Eu que tu não conheces, mas que reverencias. Sou o Eu. Sou tudo o que rodeia e que te tem sempre rodeado. E não sou nada.
Ele quedou-se ao silêncio enquanto tentava processar esta informação. O tudo... E o nada.
Os seus dedos ensanguentados brincaram com os cacos disformes. Mais corte, menos corte. Estava tudo vermelho de qualquer das maneiras.
No início tinha sido fácil, mas alastrara demasiado. A forma como os símbolos se agrupavam... não estava na ordem correcta. E por muito que quisesse detê-los soube ser demasiado tarde. O Sangue estava a diluir-se, o Eixo estava a quebrar-se e o Abismo em breve abriria as suas portas para livremente lá caírem das mais puras às mais corrompidas. E as raízes de Chaomh Cun não iriam aguentar muito mais. Os fios que a ligavam já estavam comprometidos. Sentira-o. Mas a Chaomh Cun em si estava bem.
Ao debater-se para se afastar do chão, deixou que os cacos reflectissem o que já não era ele, mas algo que o incorporava. Durante tanto tempo usara os espelhos para se esconder de todos. Durante tanto tempo abrigaram-no na demente busca à qual dedicara a sua vida.
Vida? – sentiu a voz que não era voz dentro da sua cabeça, pois não tinha timbre ou som. Era apenas uma deslocação de ar, de alma, de fios. – Foi vida o que levastes? Não... não foi.
O espelho respondia-lhe agora, estilhaçando-o. Nunca pensou saborear o seu próprio sangue quando, depois de tanto tempo a saborear o sangue de outros, se acometera para este local nos espelhos do interior. E mais do que isso, nunca pensara que estes tivessem manchados de sangue. Do mesmo sangue que contaminava a sua boca.
Lambeu os seus lábios e deixou que os seus olhos se fechassem de prazer. Pensara nunca ser capaz de sentir tal, pelo menos não agora.
Sentiu que as doces Trevas que o embalavam se aproximavam.
Será agora que finalmente me darão o sonho ou o pesadelo da eterna noite?
Mas o sono não apareceu. E os sonhos também não.
Estais partido. Mas ainda deténs poder sobre o teu Eu espelhado.
Não teria tanta certeza disso. Embora ainda o ouvisse, como sussúros apaixonados, carícias subjugadoras; não o sentia. Os fios que ligavam os cacos estavam a fenecer, tal como ele.
“Déspota malvado... perdido... partido...” ainda ecoava naquele local intemporal.
Malvado. Sim, fora malvado. Sádico. Desumano.
Quantas jovens não violara na sua luxúria funesta? Quantas pessoas não sujaram as suas mãos de sangue? Quanta dor havia o seu Eu provocado para seu bel prazer?
Demasiado, diriam alguns. Metade de todas as planícies Opalas não seriam suficientes para saciar a sua sede. E mesmo agora, ao provar daquele liquído flamejante, sentia um desejo enorme, um leve tremor na sua pele desnudada que o mantinha cheio de fome. Por mais.
Não era um vício, mas viciava. Tal como muitas necessidades viciam. Era todo um acumular de sensações bestiais, brutas e cruas. E era nessa altura, que para além de eu e do Eu, era um predador. Belo, sensual, mas para além de tudo, mortífero. Nenhum sol ou nenhuma lua havia presenciado predador tão eficaz a matar, tão fatal nas suas embuscadas e sobretudo tão assombrosamente frio.
E agora... agora era isto! Um nada. Repelente. Nojento. Fraco...
Sentiu um rugido a querer sair pela sua garganta, mas não conseguiu mais que um profundo rosnar que fez tremer os cacos à sua volta.
Que mais desejas no mundo, filho de Rhodos?
Outra vez aquela voz que não era voz. Sentiu-se espicaçado, e uma fúria ardente no seu interior fez-se sentir forte e pujante. No entanto sentiu-se forçado a responder.
Ser inteiro.
Teve a sensação de que a voz que não era voz, ou quem quer que estivesse atrás dela, sabia dos seus desejos tanto quanto ele, provavelmente ainda mais. E arrepiou-se.
E estás disposto a lutar por isso?
O Eu que era tudo... e não era nada. Ele sabia... ele sabia quem era. Julgava saber.
Sim.
Então fá-lo. Junta o teu sangue à vida que te foge.
E assim os seus lábios maculados de sangue juntaram-se às vozes intemporais que cantavam para se salvar. E uma a uma sentia as vozes a esmorecer. Pegou nos cacos que o rodeavam e sentiu-se a aspirar algo que não era seu. Algo que o poderia ajudar.
Mãe das Trevas... – balbuciou quando sentiu uma explosão no seu peito. Encolheu-se como se tivesse levado um murro. A sua respiração entrecortada e distante forçou os seus pulmões a digerir mais ar.
E foi então que o seu grito rasgou as Trevas.
Duas sombras ergueram-se das suas costas e a sua forma modificou-se à medida que o grito ia tomando proporções grotescas.
Os cacos reuniram-se. O sangue, o seu sangue entranhou-se no espelho que se formava, dando-lhe novamente um aspecto avermelhado. Uma luz bruxuleante desenvolveu-se tímida no meio da enorme sala escura.
Filho de Rhodos.
Um silêncio fez-se sentir na sala.
- Não respondo por esse nome. – respondeu a voz, glacial e profunda. Quase sussurrada.
- Então responde por este, Eilif Ophraim.
Um rosnado profundo abalou a sala e um frio cortante encheu o espelho de gelo.
- Eu sei quem és... Mas não és quem dizes ser...
O ser levantou-se e percorreu toda a escuridão envolta. Depois desapareceu.
Apenas uns instantes mais tarde ouviu-se uma inspiração assustada e uma voz sussurrada.
- Não temas... Eu não te vou magoar, feiticeirazinha. Foste tu que me libertaste?
A luz bruxuleante que iluminava a sala ganhou mais vivacidade, iluminando duas figuras encostadas uma à outra.
- Eilif... Eilif Ophraim, o Caçador da Sombra. Sou Cassa, servidora da casa de Numnei, Portadora do Crepúsculo.
- Deveras? – uma garra acariciou o peito de Cassa.
A rapariga sentiu-se incapaz de responder, deixando a cabeça descair para trás ligeiramente.
Eilif riu para si próprio, enquanto sentia a rapariga a tremer no seu controlo. A sua consciência entrou na dela por um fio quase inexistente e quando se deu conta dos pensamentos dela, ou melhor, do tipo de pensamentos que ela estava a ter, sentiu os seus instintos a chamarem por ele.
A sua boca deslocou-se ligeiramente até tocar na pele da orelha de Cassa. A jovem sentiu pequenos arrepios quando uma lufada de ar gelado lhe acariciou essa zona.
- E porque é que me libertaste, feiticeirazinha?
A feiticeira manteve-se calada por uns tempos, mas Eilif, pouco dotado de paciência, forçou as respostas segundo o fio, sem ela notar. Num segundo todas as memórias e todo o ser de Cassa era sabido pelo caçador.
- Sabes... Cassa... – começou, ronronando na sua orelha – tu és uma feiticeirazinha mesmo muito bela.
Viu, com agrado, a surpresa espalhada pela cara da rapariga.
Descendo um pouco, encostou os seus lábios ao pescoço de Cassa, sentindo todos os músculos do seu corpo numa luta extrema pelo controlo dos seus movimentos.
- Doces abismos... – murmurou silenciosamente, enquanto inspirava o seu cheiro. A sede era tão grande!...
Deixou que a sua lingua saboreasse a pele da feiticeira, deixando-o ainda mais faminto.
- Cassa... – disse o nome da feiticeira demoradamente, parecendo um suspiro apaixonado. Um suspiro de amante. De desejo.
Oh, doce pecado...
Antes que a rapariga pudesse fazer algo, Eilif afundou os seus dentes no seu pescoço.
A feiticeira nem teve tempo de gritar enquanto a vida se escoava dos seus olhos.
No final, apenas os ossos restaram.



Othium, nome etéreo do Eu do mundo, é algo em constante mudança. Os seus desejos influenciam tudo e todos os que nele vivem e que nele repousam os seus Verdadeiros Eus.
Num jogo de fios, espelhos, abismos e eixos, o mundo goza com os seus habitantes, escondendo nas suas profundezas horrores apocalípticos que estão adormecidos há muito tempo.
Mas estarão mesmo a repousar Aqueles que nunca Dormem?
Seja o sangue a essência da vida, e a energia etérea a fonte da magia, o constante equílibro do mundo joga-se em mãos invisíveis de uma qualquer vontade doentia e sádica. E aqueles que são apanhados nas teias destas vontades alheias?
Perdem-se...
para sempre.